Sexta-feira, Outubro 02, 2009

Mais Listas

Desta vez da Pó dos Livros.

Tenho quase todos em casa a descansar nas prateleiras. Ler ainda não consegui... Já tenho fila de espera e tudo!

- Dom Casmurro, de Machado de Assis
- Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski
- Pastoral Americana, de Philip Roth
- A Corja, de Camilo Castelo Branco
- O Estrangeiro, Alberto Camus
- 2666, de Roberto Bolaño
- A Invenção de Morel, de Adolfo Biov Casares
- A Última Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis
- Zadig ou do Destino, Voltaire
- O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar, Yukio Mishima

Sábado, Setembro 26, 2009

Com o 2666


Arrastei uma amiga para assistir ao acontecimento literário do ano. Estive lá, comprei o livro-tijolo faltava um minuto para a meia-noite, admirei o meu novo calhamaço, como se de um livro de direito se tratasse. A leitura de algumas passagens do livro desviou-me a atenção para outras conversas e só o José Mário Silva, de um dos meus blogs favoritos, me prendeu novamente à voz que emanava do microfone. Adorei.
Agora é entreter-me com aquela letra miudinha e com um escritor que pelos vistos, está a fazer furor na rentrée literária desta estação.

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

O Tigre Branco

Título: O Tigre Branco
Autor: Aravind Adiga
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
"O livro revela uma Índia ainda muito pouco explorada pela ficção, a Índia negra, violenta e exuberante das desigualdades socioculturais. Toda a obra é uma longa carta dirigida ao Primeiro-Ministro chinês, escrita ao longo de sete noites. O autor da carta apresenta-se como o tigre branco do título, e auto-denomina-se um "empreendedor social". Descrevendo a sua notável ascensão de pobre aldeão a empresário e empreendedor social, o autor da carta, Balram, acaba por fazer uma denúncia mordaz das injustiças e peculiaridades da sociedade indiana. Fica assim feito o retrato de uma sociedade brutal, impiedosa, em que as injustiças se perpetuam geração após geração, como uma ladainha que se entoa incessantemente ao ritmo de uma roda de orações. São muito poucos os animais que conseguem abrir um buraco na vedação e escapar ao destino do cárcere eterno. O Tigre Branco é um deles."

Comentário:
Há livros que nos surpreendem. Não tanto pela forma de escrever, mas pelo conteúdo e pelas ideias transmitidas. Um retrato cruel de um país grande e cheio. A Índia com a sua profunda disparidade social, um sistema de castas profundamente injusto e degradante, que não faz jus à igualdade entre os homens.
Obviamente que no meio de tanta miséria, há sempre quem vença, vindo das entranhas e utilizando meios menos legítimos mas quem somos nós para condenar os métodos. Os fins nem sempre justificam os meios mas deixam a pensar...
É um país estranho, com uma cultura estranha. Mas o livro é de ler e chorar por mais.

Sexta-feira, Julho 31, 2009

A Solidão dos Números Primos

Título: A Solidão dos Números Primos
Autor: Paolo Giordano
Editora: Bertrand Editora

Sinopse:
"Alice é obrigada pelo pai a frequentar um curso de esqui para ser forte e competitiva, mas um acidente terrível deixará marcas no seu corpo para sempre. Mattia é um menino muito inteligente cuja irmã gémea é deficiente. Quando são convidados para uma festa de anos, ele deixa-a sozinha num banco de jardim e nunca mais torna a vê-la. Estes dois episódios irreversíveis marcarão a vida de ambos para sempre. Quando estes "números primos" se encontram são como gémeos, que partilham uma dor muda que mais ninguém pode compreender."

Comentário:
É um livro doloroso, carregado de solidão, desencontros e muitos silêncios. Ficou tanto por dizer, por explicar, por compreender.
A história em paralelo de duas almas gémeas, matematicamente equiparadas a dois números primos. Os anos vão correndo, as vidas vão-se vivendo, outras personagens entram e saem. A final, resta sempre o fio que os une, reflexo de um sentimento maior. Mas nem esse consegue ultrapassar a barreira da solidão.
Foram marcados pelo passado. Episódios determinantes das fragilidades de ambos - a bulimia e os cortes nas mãos. Mas aliando a alegria de Alice e a inteligência de Matia, percorrem o caminho da vida em paralelo, com alguns choques intensos, influenciando-se mutuamente.
Um final previsível. O único possível. Sem romantismo ou afins, apenas a crua e dura realidade...

Sexta-feira, Julho 24, 2009

O Herdeiro de Sevenwaters

Título: O Herdeiro de Sevenwaters
Autor: Juliet Marillier
Editora: Bertrand


Sinopse:
"Os chefes de clã de Sevenwaters são há muito guardiões de uma vasta e misteriosa floresta, um dos últimos refúgios dos Tuatha De Danann, as Criaturas Encantadas que povoam as velhas lendas. Aí, homens e habitantes do Outro Mundo coabitam lado a lado, separados pelo finíssimo véu que divide os dois reinos e unidos por uma cautelosa confiança mútua. Até à Primavera em que Lady Aisling de Sevenwaters descobre que está grávida e tudo se transforma.
Clodagh teme o pior, uma vez que Aisling já passou há muito tempo a idade segura para conceber uma criança. O pai de Clodagh, Lorde Sean de Sevenwaters, depara-se com as suas próprias dificuldades, vendo a rivalidade entre clãs vizinhos ameaçar as fronteiras do seu território. Quando Aisling dá à luz um filho varão - o novo herdeiro de Sevenwaters - Lodagh é incumbida de cuidar da criança durante a convalescença da mãe.
A felicidade da família cedo se converte em pesadelo quando o bebé desaparece do quarto e uma coisa não natural é deixada no seu lugar. Para reclamar o irmão de volta, Clodagh terá de entrar nesse reino de sombras que é o Outro Mundo e confrontar o poderoso príncipe que o rege. Acompanhada nesta missão por um guerreiro que não é exactamente o que parece, Clodagh verá a sua coragem posta à prova até ao limite da resistência. A recompensa, porém, talvez supere os seus sonhos mais audazes..."

Comentário:
Como sempre me habituei, mais uma história que desliza como mel. Lê-se de uma assentada só. E eu, como romântica incorrígivel, sorrio perante histórias de amor complicadas mas sempre possíveis, com seres mágicos, um tempo e num mundo tão diferente do nosso.
A continuação da trilogia de Sevenwaters fez-me perceber que não me importo que o estilo se repita, que as palavras sejam parecidas ou que a autora ande sempre na onda do "long time ago".
Gosto de lê-la. Ainda consigo emocionar-me. Afinal estámos a falar de amor puro e desinteressado, amor eterno, amor para além da morte. Uma utopia bonita de se imaginar...

Terça-feira, Julho 14, 2009

O Rastro do Jaguar


Título: O Rastro do Jaguar
Autor: Murilo Carvalho
Editora: Leya

Sinopse:
"Estamos no virar do século XIX em Congonhas do Campo. Pereira, um antigo jornalista de origem portuguesa, revisita as suas memórias, que percorrem todo o conturbado período da segunda metade do século. Através do relato da sua viagem, Pereira, que deixara Paris com o seu grande amigo e companheiro Pierre, leva-nos a conhecer o Brasil em guerra com o vizinho Paraguai, no período mais decisivo da sua história. Uma guerra sangrenta que o Brasil trava ao lado da Argentina e do Uruguai e que, para Pereira e Pierre, será o momento decisivo das suas vidas. É também a guerra pelo espaço vital das populações índias que, humilhadas pela acomodação forçada às regras e vivências dos colonos, tentam recuperar a sua Terra Mítica onde o Mal não existe. É ainda a guerra travada por Pierre para se definir a si mesmo: índio, como o seu povo, ou europeu, tal como foi criado? Levado em criança por Auguste de Saint’ Hillaire do Brasil para França, descobre, já adulto, nas feições de dois índios presos, a chave para as suas raízes nunca explicadas. Raízes que vai encontrar nesse cruzamento do Rio da Prata onde brasileiros e paraguaios morrem aos milhares e os índios guarani lutam por uma terra onde possam de novo viver livres e em paz. Da França à Argentina, do Brasil ao Paraguai, do sertão nordestino aos planaltos do Sul do Brasil, Pereira relata-nos de uma forma empolgante e quase cinematográfica as grandes transformações que definiram a América do Sul. Pelo caminho, encontra o amor perfeito e Pierre a pátria a que, junto dos seus, pode chamar sua. Baseado em factos verídicos e personagens reais, O Rastro do Jaguar é um fresco dos intensos choques culturais e sociais que marcaram o século XIX e a relação dos europeus com as suas antigas colónias agora independentes."

Comentário:
É um livro com muito vigor, com uma descrição perturbante da guerra e da destruição da nação índia. A História do Brasil no seu melhor e pior.
Encaixa-se naquelas obras que me vi obrigada a continuar - nas partes mais enfadonhas - para no fim até achar piada. Mas contente por ter terminado.
Vencedor do Prémio Leya 2008.

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Os Cem Melhores Livros de Sempre

A Newsweek fez uma lista com os cem melhores livros de sempre. Com as devidas explicações. O Expresso acrescentou mais uns esquecidos.
Ler melhor aqui.

1. Guerra e Paz , Lev Tolstoi, 1869
2. 1984, George Orwell, 1949
3. Ulisses, James Joyce, 1922
4. Lolita, Vladimir Nabokov, 1955
5. O Som e a Fúria, William Faulkner, 1929
6. O Homem Invisível, Ralph Ellison, 1952
7. Rumo ao Farol, Virginia Woolf, 1927
8. Ilíada e Odisseia, Homero, século VIII a.c.
9. Orgulho e Preconceito, Jane Austen, 1813
10. A Divina Comédia, Dante Alighieri, 1321
11. Os Contos de Cantuária, Geoffrey Chaucer, século XV
12. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift, 1726
13. A Vida Era Assim em Middlemarch, George Eliot, 1874
14. Quando Tudo se Desmorona, Chinua Achebe, 1958
15. À Espera no Centeio, J. D. Salinger, 1951
16. E Tudo o Vento Levou, Margaret Mitchell, 1936
17. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez, 1967
18. O Grande Gatsby, Scott Fitzgerald, 1925
19. Catch 22, Joseph Heller, 1961
20. Beloved, Toni Morrison, 1987
21. As Vinhas da Ira, John Steinbeck, 1939
22. Os Filhos da Meia-Noite, Salman Rushdie, 1981
23. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley, 1932
24. Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf, 1925
25. O Filho Nativo, Richard Wright, 1940
26. Da Democracia na América, Alexis de Tocqueville, 1835
27. A Origem das Espécies, Charles Darwin, 1859
28. Histórias, Heródoto, 440 a.c.
29. O Contrato Social, Jean-Jacques Rosseau, 1762
30. O Capital, Karl Marx, 1867
31. O Príncipe, Nicolau Maquiavel, 1532
32. Confissões, Santo Agostinho, século IV
33. Leviatã, Thomas Hobbes, 1651
34. História da Guerra do Peloponeso, Tucídides, 431 a.c.
35. O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien, 1954~
36. Winnie The Pooh, A. A. Milne, 1926
37. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, C. S. Lewis, 1950
38. Passagem para a Índia, E. M. Forster, 1924
39. Pela Estrada Fora, Jack Kerouac, 1957
40. Por Favor Não Matem a Cotovia, Harper Lee, 1960
41. A Bíblia Sagrada
42. Laranja Mecânica, Anthony Burgess, 1962
43. Luz em Agosto, William Faulkner, 1932
44. As Almas da Gente Negra, W. E. B. Du Bois, 1903
45. Vasto Mar de Sargaços, Jean Rhys, 1966
46. Madame Bovary, Gustave Flaubert, 1857
47. O Paraíso Perdido, John Milton, 1667
48. Anna Karenina, Lev Tolstoi, 1877
49. Hamlet, William Shakespeare, 1603
50. Rei Lear, William Shakespeare, 1608
51. Otelo, William Shakespeare, 1622
52. Sonetos, William Shakespeare, 1609
53. Folhas de Erva, Walt Whitman, 1855
54. As Aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain, 1885
55. Kim, Rudyard Kipling, 1901
56. Frankenstein, Mary Shelley, 1818
57. Song of Solomon, Toni Morrison, 1977
58. Voando Sobre um Ninho de Cucos, Ken Kesey, 1962
59. Por Quem os Sinos Dobram, Ernest Hemingway, 1940
60. Matadouro Cinco, Kurt Vonnegut, 1969
61. O Triunfo dos Porcos, George Orwell, 1945
62. O Deus das Moscas, William Golding, 1954
63. A Sangue Frio, Truman Capote, 1965
64. O Caderno Dourado, Doris Lessing, 1962
65. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust, 1913
66. À Beira do Abismo, Raymond Chandler, 1939
67. Na Minha Morte, William Faulkner, 1930
68. O Sol Nasce Sempre (Fiesta), Ernest Hemingway, 1926
69. Eu, Cláudio, Robert Graves, 1934
70. Coração, Solitário Caçador, Carson McCullers, 1940
71. Filhos e Amantes, D. H. Lawrence, 1913
72. All The King's Men, Robert Penn Warren, 1946
73. Go Tell It on The Mountain, James Baldwin, 1953
74. A Menina e o Porquinho, E. B. White, 1952
75. O Coração das Trevas, Joseph Conrad, 1902
76. Noite, Elie Wiesel, 1958
77. Corre, Coelho, John Updike, 1960
78. A Idade da Inocência, Edith Wharton, 1920
79. O Complexo de Portnoy, Philip Roth, 1969
80. Uma Tragédia Americana, Theodore Dreiser, 1925
81. O Dia dos Gafanhotos, Nathanael West, 1939
82. Trópico de Câncer, Henry Miller, 1934
83. O Falcão de Malta, Dashiell Hammett, 1930
84. Mundos Paralelos, Philip Pullman, 1995
85. Death Comes for the Archbishop, Willa Cather, 1927
86. A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud, 1900
87. A Educação de Henry Adams, Henry Adams, 1918
88. O Livro Vermelho, Mao Tsé Tung, 1964
89. As Variedades da Experiência Religiosa, William James, 1902
90. Reviver o Passado em Brideshead, Evelyn Waugh, 1945
91. A Primavera Silenciosa, Rachel Carson, 1962
92. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, John Maynard Keynes, 1936
93. Lord Jim, Joseph Conrad, 1900
94. Goodbye to All That, Robert Graves, 1929
95. A Sociedade da Abundância, John Kenneth Galbraith, 1958
96. O Vento nos Salgueiros, Kenneth Grahame, 1908
97. A Autobiografia de Malcolm X, Alex Haley e Malcolm X, 1965
98. Eminent Victorians, Lytton Strachey, 1918
99. A Cor Púrpura, Alice Walker, 1982
100. Memórias da Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill, 1948

Os dez livros que faltam
As listas dos 'melhores' livros de sempre são como as sondagens: valem o que valem. No top-100 da "Newsweek", à subjectividade que qualquer escolha deste tipo sempre acarreta, juntam-se dois factores que lhe limitam o alcance e a utilidade: a desproporção de referências literárias anglófonas (81% dos títulos), que remete o resto do mundo a uma injustíssima quase inexistência, e o facto de alguns autores estarem representados por dois ou três livros. Para um europeu, é incompreensível que estejam ausentes nomes como os de Camões, Cervantes, Balzac, Eça de Queirós, Oscar Wilde, Pirandello, Pessoa, Camus, Beckett, Italo Calvino, Yasunari Kawabata, Elias Canetti, Julio Cortázar, J. M. Coetzee, Orhan Pamuk, por troca com autores menores como W. E. B. Du Bois, Ken Kesey, James Baldwin, E. B. White ou Willa Cather. Entre as grandes obras que esta lista ignora, contam-se estas dez:
Orlando Furioso, Ludovico Ariosto, 1516
Os Lusíadas, Luís Vaz de Camões, 1572
Dom Quixote, Miguel de Cervantes, 1605-1615
Tristram Shandy, Laurence Sterne, 1759-1767
Crime e Castigo, Dostoiévski, 1866
Contos, Tcheckov
A Montanha Mágica, Thomas Mann, 1924
O Homem Sem Qualidades, Robert Musil, 1943
Ficções, Jorge Luis Borges, 1944
O Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell, 1960

Segunda-feira, Junho 15, 2009

A Vida num Sopro



Título: A Vida num Sopro
Autor: José Rodrigues dos Santos
Editora: Gradiva

Sinopse:
"Portugal, anos 30.
Salazar acabou de ascender ao poder e, com mão de ferro, vai impondo a ordem no país. Portugal muda de vida. As contas públicas são equilibradas, Beatriz Costa anima o Parque Mayer, a PVDE cala a oposição.
Luís é um estudante idealista que se cruza no liceu de Bragança com os olhos cor de mel de Amélia. O amor entre os dois vai, porém, ser duramente posto à prova por três acontecimentos que os ultrapassam: a oposição da mãe da rapariga, um assassinato inesperado e a guerra civil de Espanha.
Através da história de uma paixão que desafia os valores tradicionais do Portugal conservador, este fascinante romance transporta-nos ao fogo dos anos em que se forjou o Estado Novo.
Com A vida num sopro, José Rodrigues dos Santos traz o grande romance de volta às letras portuguesas."


Comentário:
"Viver é sofrer". Uma frase que lemos várias vezes neste livro e que se adequa bem à história de amor que se entrelaça com o Estado Novo, com a PVDE e com a Guerra Civil espanhola.
É um livro muito triste, feito de coincidências espantosas (e se forem verdadeiras, incríveis!) com um final inesperado. Um beco sem saída, um sacrifício em nome do amor e da honra, uma armadilha desleal. São vários os motivos que podem explicar a atitude de Luís.
Já consegui interiorizar o estilo do autor e agarrar o essencial no meio de tanta metáfora. Lê-se bem, tem uma edição apelativa com um bom tamanho de letra e é levezinho.


Sábado, Maio 30, 2009

A Mãe

Título: A Mãe
Autor: Pearl S. Buck
Editora: Publicações Europa-América

Sinopse:
"Escrito num tom e prosa de extrema simplicidade, este livro dá-nos a conhecer a vida de «a mãe», uma camponesa chinesa abandonada pelo marido, que fica com a responsabilidade de prover ao sustento dos filhos, um dos quais se descobre ser cego. Esta mulher estóica, sem nome mas nem por isso anónima, assume uma grandeza aos olhos dos leitores pela forma como encara e ultrapassa os obstáculos que a vida põe no seu caminho."

Comentário:
Requisitei-o na biblioteca, uma edição velhinha, que me provocou um ataque de espirros. Há livros que nos marcam. Que nos mostram a intemporalidade das coisas. E este foi um deles.
Escrito em 1933 por uma grande escritora, galardoada com o prémio Nobel da Literatura (são poucas mas boas!), conta-nos a história de vida de uma mãe - A Mãe - com três filhos, um marido que vai embora e uma força que lhe vem das entranhas para enfrentar o seu destino. Humana, com defeitos e pecadilhos, é no amor que nutre pelos filhos que rege o seu dia-a-dia.
A visão de uma camponesa na China de antigamente, em que se denotam algumas tradições como seja o surgimento do comunismo ou toda a panafernália que envolvia os casamentos arranjados. Embora não seja relevante o país de narração. Só mais tarde se percebe que é lá.
Uma faceta da maternidade com a qual me identifiquei. E muito.

Introduzo uma nova rubrica. São excertos do livro. Excertos para mais tarde recordar. Porque gostei, porque me dizem alguma coisa, porque me ajudam a saborear palavras tão bonitas, porque isto ou aquilo...

Excertos:
"Sim, para a Mãe todos os dias eram iguais uns aos outros, mas ela nunca os achava tristes e sentia-se contentíssima com o decorrer do tempo (...) A Mãe pertencia ao número das que se contentam em viver ao pé do seu homem e dos seus filhos, sem pensar noutra coisa."

"Mas havia o homem. Para ele tudo seria sempre igual, nada mudaria jamais, sem esperança de qualquer coisa nova, dia após dia.
Nem o nascimento dos filhos, que a mulher amava com ternura, era para ele uma novidade; nasciam todos da mesma maneira, pareciam-se todos uns com os outros. Era preciso mantê-los e vesti-los. Mais tarde casariam, nasceriam outros filhos. Seria sempre a mesma coisa. Um dia igual ao da véspera, sem novidade alguma a esperar."

"... Mas o amor do homem não lhe bastava, tinha de conceber e sentir, na sua carne, a alegria da criação de um filho. Então o acto do amor completava-se. Sentir nas suas entranhas o ser que se agitava e crescia era a plenitude! Andava num deslumbramento..."

"... Depois o homem com quem casou ocupara um lugar cada vez maior na sua vida; porque lhe dava as alegrias da maternidade e fazia parte dela. Não o amava apenas por ele só."

"E acabou por chorar.
As lágrimas começaram a brotar amargas e raras, depois correram mais à vontade; ela então apoiou a cabeça no túmulo e chorou como choram as mulheres quando o seu coração está tão cheio de desgosto das suas vidas que o sofrimento brota e transborda de maneira tal que não pensam senão em aliviar como podem a sua amargura, tanto as esmaga a dor da sua existência".

"Nesta nova maternidade, purificada pelas lágrimas, não se sentiria nunca suficientemente terna e expedita para dar satisfação ao seu coração."

Quinta-feira, Maio 21, 2009

A Rapariga Que Roubava Livros


Título: A Rapariga Que Roubava Livros
Autor: Markus Zusak
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
"Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador em A Rapariga Que Roubava Livros, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. Quando o roubou, ainda não sabia ler, será com a ajuda do seu pai, um perfeito intérprete de acordeão que passará a saber percorrer o caminho das letras, exorcizando fantasmas do passado. Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra. Um livro soberbo que prima pela originalidade e que nos devolve um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e acima de tudo pelo amor à literatura."

Comentário:
Ultimamente, só leio livros de que gosto muito.
O toque juvenil, a simplicidade da escrita, o requinte histórico, tudo conjugado, para contar, tendo como narrador a Morte - principal personagem em tempos de guerra - a vida de Liesel, uma menina dada a uma família de acolhimento, nos idos da Segunda Grande Guerra.
A história no seu melhor, focada nas pessoas, centrada no dia-a-dia de algumas famílias alemãs, numa cidade sem importância, em que se constata a modificação operada na vida de todos eles com a guerra, os judeus, o racionamento, até ao bombardeamento final.
E claro, o mais interessante são as relações fortes que se estabelecem em tempos bizarros, entre Liesel e os livros, entre Liesel e Max, entre Liesel e o seu "papá". A sacudidora de palavras, que agitou a vida de tantos...

Quarta-feira, Abril 22, 2009

O Filho Eterno

Título: O Filho Eterno
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Gradiva Publicações

Sinopse:
"Nada do que não foi poderia ter sido.
Esta é uma frase-chave do belo romance de Cristovão Tezza sobre o seu filho Felipe, nascido com síndrome de Down. De facto, quando olhamos para o passado, a ideia de que nada poderia ter sido diferente serve de consolo - talvez por isso a noção de destino nos seja tão cara. Mas há escolhas que fazemos diariamente, e são estas que traçam o curso da nossa vida.
Neste livro corajoso, o autor expõe as dificuldades, inúmeras, e as pequenas e saborosas vitórias de criar um filho com síndrome de Down. Do anúncio do problema à ruptura na vida do casal que este provoca e à reflexão pessoal a que obriga.
Com a precisão literária necessária ao respeito do distanciamento exigido pela forma ficcional e com o encadear de maneira clara referências pessoais e temporais díspares, Cristovão Tezza reforça, em O filho eterno, o seu lugar entre os maiores escritores brasileiros."

Comentário:
Extremamente recomendado, este livro encheu-me as medidas. Por muitos motivos.
Por ser mãe, por me comover crianças especiais mas principalmente pela sinceridade que encontrei. E isso é raro. Temos a mania de florear os nossos sentimentos, de escondê-los num baú impenetrável, com receio do que os outros vão achar.
E este escritor abriu a sua alma. Com laivos biográficos, descreve, tentando ordenar e transpor para o papel os pensamentos que o dominaram a partir do momento em que nasceu o seu primeiro filho.
Com uma franqueza não usual, admite o desejo de morte do bebé, a vergonha de sair à rua com ele, a frustração pelo desenvolvimento aquém das suas expectativas apesar dos estímulos a que é sujeito e a confirmação dolorosa de que o milagre nunca vai chegar. O Felipe não vai ser um menino como os outros. E a partir dessa aceitação, tudo se torna mais fácil e a descrição das suas proezas, das suas preferências, do seu dia-a-dia transportam-nos para uma relação filial única.
A final, percebemos que o amor pelos filhos é isso mesmo. Demora a aparecer mas quando chega, marca indelevelmente o nosso coração e eterniza-nos.
Nada do que não foi poderia ter sido.

Segunda-feira, Março 09, 2009

O Jogo do Anjo

Título: O Jogo do Anjo
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: D. Quixote


Sinopse:
"Na Barcelona turbulenta dos anos 20, um jovem escritor obcecado com um amor impossível recebe de um misterioso editor a proposta para escrever um livro como nunca existiu a troco de uma fortuna e, talvez, muito mais.
Com deslumbrante estilo e impecável precisão narrativa, o autor de A Sombra do Vento transporta-nos de novo para a Barcelona do Cemitério dos Livros Esquecidos, para nos oferecer uma aventura de intriga, romance e tragédia, através de um labirinto de segredos onde o fascínio pelos livros, a paixão e a amizade se conjugam num relato magistral."

Comentário:
Na linha do anterior - A Sombra do Vento - com Barcelona como pano de fundo. Novamente, os livros assumem uma relevância só comparável ao ar que respiramos. Claro que a personagem principal é um escritor. Vamos percorrendo esta cidade tão-ela-mesmo e sentimos a angústia, a tristeza e a raiva num relato geracional. Uma espécie de maldição, uma história mal contada, que se absorve mas fica por explicar nalguns pontos, como se cada um adaptasse à sua realidade.
Gostei embora já tenha vislumbrado muito deste enredo na anterior obra. Segue uma linha contínua com muitas coincidências. Enfim, o estilo do escritor é este e temos que aceitá-lo. Há poucos que conseguem surpreender-nos pela diversidade de temas que abordam. Hemingway é um exemplo.

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

Ensaio sobre a Cegueira

Título: Ensaio sobre a Cegueira
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
"Uma cidade é devastada por uma epidemia instantânea de "cegueira branca". Face a este surto misterioso, os primeiros indivíduos a serem infectados são colocados pelas autoridades governamentais em quarentena, num hospital abandonado. Cada dia que passa aparecem mais pacientes, e esta recém-criada "sociedade de cegos" entra em colapso. Tudo piora quando um grupo de criminosos, mais poderoso fisicamente, se sobrepõe aos fracos, racionando-lhes a comida e cometendo actos horríveis. Há, porém, uma testemunha ocular a este pesadelo: uma mulher, cuja visão não foi afectada por esta praga, que acompanha o seu marido cego para o asilo. Ali, mantendo o seu segredo, ela guia sete desconhecidos que se tornam, na sua essência, numa família. Ela leva-os para fora da quarentena em direcção às ruas deprimentes da cidade, que viram todos os vestígios de uma civilização entrar em colapso. A viagem destes é plena de perigos, mas a mulher guia-os numa luta contra os piores desejos e fraquezas da raça humana, abrindo-lhes a porta para um novo mundo de esperança, onde a sua sobrevivência e redenção final reflectem a tenacidade do espírito humano."

Comentário:
Estreei-me na obra do nosso Nobel. E francamente, gostei. Um tema extremamente original, como já nos habituou.
Um livro que impressiona. Como o caos pode dominar uma cidade, quando o impensável acontece. Tudo o que foge à normalidade desperta os mais violentos e improváveis sentimentos, no âmago da nossa alma humana.
Um livro que choca os mais sensíveis. A descrição da selva que ocupou o espaço urbano e do cativeiro dos primeiros a cegar é feito sem rodeios nem floreados. Áspero e cruel.
Um livro que leva à velha questão. O que seremos nós capazes de fazer numa situação limite? Reduzir-nos a meros seres dominados pelo medo e pela necessidade? Transformar-nos em animais humanos?
Um livro arrepiante.

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Quando Nietzsche Chorou

Título: Quando Nietzsche Chorou
Autor: Irvin D. Yalom
Editora: Saída de Emergência

Sinopse:
"Friederich Nietzsche, o maior filósofo da Europa, está no limite de um desespero suicida, incapaz de encontrar cura para as insuportáveis enxaquecas que o afligem. Josef Breuer, médico distinto e um dos pais da Psicanálise, aceita tratar o filósofo com uma terapia nova e revolucionária: conversar com Nietzsche e, assim, tornar-se um detective na sua cabeça. Pelas ruas, cemitérios e casas de chá da Viena do sec. XIX, estes dois gigantes do seu tempo vão conhecer-se um ao outro e, fundamentalmente, conhecer-se a si próprios.E no final não é apenas Nietzsche que exorciza os seus fantasmas. Também Breuer encontra conforto naquelas sessões e descobre a razão dos seus próprios pesadelos, insónias e obsessões sexuais. Quando Nietzsche Chorou funde realidade e ficção, ambiente e suspense, para desvendar uma história superior sobre amor, redenção e o poder da amizade."

Comentário:
É um livro extremamente interessante. A origem dos chamados médicos do desespero e da terapia pela conversa vale pelo aspecto histórico. Mas o que releva mesmo é o conteúdo do discurso. Deixou-me a pensar. Em muitas ocasiões.
As palavras que curam, o poder do diálogo, o encontro de duas almas que se identificam, os exercícios mentais e a derradeira ironia de aplicação de um método inovador que vai curar médico e paciente.
Continuo a achar que a vida de cada um de nós é fácil de ser vivida. Nós é que a complicamos...

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Balanço 2008

Li pouco. Os volumes amontoam-se na prateleira em lista de espera.
Arrumei a minha estante dos livros. Passei para o papel os títulos que tenho e tenho esperança de elaborar uma bibliografia exclusiva em formato excel durante o ano que vem.
Comprei alguns livros. Nos meus anos e no Natal, comecei a pedir (encarecidamente) que me oferecessem vales da Fnac para poder escolher o que tenciono ler e reler.
Faço parte de um Clube do Livro, meio adormecido por causa da época festiva.
Eis o que resume 2008.
O meu desejo para 2009.
Que me permita ter tempo e mais paciência para ler do mais belo que é escrito por este Portugal e arredores.

Sexta-feira, Outubro 17, 2008

A Festa do Chibo

Título: A Festa do Chibo
Autor: Mario Vargas Llosa
Editora: D. Quixote


Sinopse:
"Neste seu novo romance, o escritor peruano Mário Vargas Llosa debruça-se sobre a figura do ditador dominicano Rafael Trujillo, que esteve no poder durante 31 anos (foi deposto e assassinado numa conjura em 1961). Mas, como diz o autor em entrevista (Visão, 8/3/2001), este livro 'pretende transcender a figura de Trujillo para se transformar num romance sobre todas as ditaduras'. O título vem duma das alcunhas que o povo pôs a este ditador, que, como outros ditadores, cometeu as maiores atrocidades (conta-se que chegou a obrigar um dos seus súbditos a comer o próprio filho), mas também foi considerado uma espécie de semi-deus (e daí a sua perpetuação no poder durante tanto tempo). No romance, muito bem documentado, convergem três histórias: a de Urania Cabral (esta uma personagem inventada por Vargas Llosa 'porque não queria que o romance fosse contado apenas a partir do interior da ditadura', Visão, ibid.), uma mulher que regressa à República Dominicana nos anos 90, depois de uma ausência de mais de trinta anos, a dos conjurados de 61, e a das atrocidades de Trujillo."
Daqui


Comentário:
Muito bom! A minha adoração por romances históricos levou-me a devorar literalmente as letrinhas que compõem este livro.
A história do ditador Trujillo, dos seus justiceiros e das suas vítimas. Naquele país distante intitulado República Dominicana. Mas podia ser aqui ao lado. O "modus operandi" é semelhante em todas as ditaduras...
Brilhante o encadeamento da acção que me fez viajar numa mesma época, entre presente, passado e futuro. Arrepiante as descrições das torturas inflingidas aos opositores do regime. E aos simples inocentes, cujo único crime é ser da família do suspeito. Sufocante a caracterização das personagens, levada ao pormenor.

Um tema que nos deixa a pensar. Até onde pode ir o ser humano pelo poder e pela inevitável personificação divina?

Segunda-feira, Setembro 29, 2008

O Sétimo Selo

Título: O Sétimo Selo
Autor: José Rodrigues dos Santos
Editora: Gradiva


Sinopse:
"Um cientista é assassinado na Antárctica e a Interpol contacta Tomás Noronha para decifrar um enigma com mais de mil anos, um segredo bíblico que o criminoso rabiscou numa folha e deixou ao lado do cadáver: 666.
O mistério em torno do número da Besta lança Tomás numa aventura de tirar o fôlego, uma busca que o levará a confrontar-se com o momento mais temido por toda a humanidade: O apocalipse.
De Portugal à Sibéria, da Antárctica à Austrália, O Sétimo Selo transporta-nos numa empolgante viagem às maiores ameaças que se erguem à sobrevivência da Humanidade. Baseando-se em informação científica actualizada, José Rodrigues dos Santos volta com este emocionante romance aos grandes temas contemporâneos, numa descoberta que poderá abalar a forma como cada um de nós encara o futuro da humanidade e do nosso planeta."


Comentário:
O historiador Tomás de Noronha lança-se em mais uma aventura. Mais uma vez, está tudo lá - a intriga, a mulher bonita, a família. Como leitora compulsiva de todos os livros que vai escrevendo, acho que a fórmula se esgotou. Percebe-se bem o fim da história e quem são os traidores do costume. A aridez elegante contida nos diálogos entusiasma ao princípio mas vai-se esbatendo ao longo do livro. Os floreados não existem. Um romance muito estéril, muito técnico, muito masculino.
Lê-se bem. E rapidamente. O tema é actual e realista - as variações climáticas e a sua importância para o futuro da humanidade. Muito bem fundamentado, com uma pesquisa muito exaustiva.
Mas fiquei com saudades do estilo Filha do Capitão.

Sexta-feira, Julho 25, 2008

O Sonho Mais Doce


Título: O Sonho mais Doce
Autor: Doris Lessing
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
"Em O Sonho Mais Doce, o leitor é conduzido por uma saga familiar que atravessa três gerações, centrando-se o enredo, sobretudo, na década de 60, altura em que a casa de Júlia Lennox alberga uma grande quantidade de jovens, personificando o espírito de liberdade prevalecente na Inglaterra de então. Recuando até 1914, a autora apresenta-nos Philip Lennox e a sua noiva Júlia, tendo como pano de fundo a I Guerra Mundial. Do casamento entre ambos nasce um filho Johnny, que se tornará um comunista muito activo. No limiar da II Grande Guerra Johnny apaixona-se por Frances, camarada do partido. Frances e os dois filhos que nascem desta união, abandonados por Johnny, vão morar com Júlia, entretanto já viúva. Já na década de 60, Sylvia, fruto de uma ligação amorosa de Johnny, também encontra refúgio em casa de Júlia. Sylvia sofre de anorexia mas apesar da doença consegue formar-se em medicina e depois de uma temporada em África regressa a Londres com dois jovens órfãos. Um retrato de três mulheres-coragem – Júlia, Frances e Sylvia - que aborda temas característicos de várias épocas como a guerra fria, a guerra do Vietname, as drogas, o surgimento da Sida em África, a anorexia e a depressão, entre outras."

Comentário:
Que livro tão triste! Tão repleto de realidade, daquela nua e crua. A história de três mulheres cujas vidas se entrecruzam por casualidade. Frances casa-se e divorcia-se do filho de Julia e Sylvia é a filha da segunda mulher do filho de Julia.
O que me tocou foi o retrato brilhante de uma época conturbada, com claro enfoque na juventude de então, nos seus ideais, no seu modo de vida, na sua apetência política e na sua relação com os pais. Quase como órfãos de pais vivos, ocupavam o casarão de Julia, onde Frances morava com os dois filhos, numa divisão confusa por andares. Estudaram, viveram e cresceram. Com a arrogância dos jovens, com a certeza que o mundo era deles e que todos estavam ali para os servir.
Fruto do comunismo predominante, entra África em acção, com a história de um país inventado (Zimlia) mas tão parecido com qualquer um desse continente. Aí o relato torna-se cruel. E Sylvia torna-se a personagem principal. Médica voluntária, tenta fundar um “hospital”, quase de campanha, numa zona recôndita desse país. Onde a Sida (a Magreza) começava a disseminar a população africana. Lutou tanto. Mas o que me ficou na memória foi a voracidade que tinham em aprender a ler e a escrever. É só dar-lhes as condições necessárias…
E o livro termina onde começou, com a casa londrina cheia novamente, repleta de vozes de crianças e jovens, e Frances a assumir o testemunho novamente.
Uma última nota para Johnny. Que personagem irritante!
Gostei muito.

Quarta-feira, Julho 09, 2008

As Mulheres do Meu Pai

Título: As Mulheres do Meu Pai
Autor: José Eduardo Agualusa
Editora: D. Quixote

Sinopse:
"Faustino Manso, famoso compositor angolano, deixou ao morrer sete viúvas e dezoito filhos. A filha mais nova, Laurentina, realizadora de cinema tenta reconstruir a atribulada vida do falecido músico.
Em As Mulheres do Meu Pai, realidade e ficção correm lado a lado, a primeira alimentando a segunda. Nos territórios que José Eduardo Agualusa atravessa, porém, a ficção participa da realidade. As quatro personagens do romance que o autor escreve, enquanto viaja, vão com ele de Luanda, capital de Angola, até Benguela e Namibe. Cruzam as areias da Namíbia e as suas povoações-fantasma, alcançando finalmente Cape Town, na África do Sul.
Continuam depois, rumo a Maputo, e de Maputo a Quelimane, junto ao rio dos Bons Sinais, e dali até à ilha de Moçambique. Percorrem, nesta deriva, paisagens que fazem fronteira com o sonho, e das quais emergem, aqui e ali, as mais estranhas personagens.
As Mulheres do Meu Pai é um romance sobre mulheres, música e magia. Nestas páginas anuncia-se o renascimento de África, continente afectado por problemas terríveis, mas abençoado pelo talento da música, o sempre renovado vigor das mulheres e o secreto poder de deuses muito antigos."

Comentário:
Estava mesmo entusiasmada para ler este livro. Infelizmente, não consegui embrenhar-me na narrativa. O estilo próprio, com capítulos curtos, sempre com diversos narradores tem a sua piada ao início. Depois, só serviu para me confundir. Voltava atrás várias vezes, tentando adivinhar qual o narrador. Perdi o rumo da história, a lógica do enredo. Creio que nem percebi muito bem a relação Laurentina-Karen. Enfim...
A final, consigo encontrar sempre aspectos engraçados que me arrancaram uns sorrisos: a verdadeira história de Faustino Manso e a ironia da situação, o Pouca Sorte que conduzia a dormir e o seu passado "tenebroso", a Laurentina e os seus amores. No entanto, não me convenceu...

Quarta-feira, Abril 30, 2008

Terras do Sem Fim


Título: Terras do Sem Fim
Autor: Jorge Amado
Editora: Livros do Brasil
Sinopse:
"(...) reflecte a época heróica da conquista da terra do Nordeste brasileiro. É ao mesmo tempo história do Brasil (a primeira fase do ciclo do cacau, que em São Jorge dos Ilhéus atinge o período industrial) e história do homem eterno, rude e governado pelas paixões, entre uma grandeza de lenda, que se conjuga com a própria imensidão do solo, e a dor infinita dos vencidos e espoliados, dos fracos e doentes, que não vingam nas Terras do Sem Fim.
É este o romance prodigioso de uma região por desbravar, onde confluem os aventureiros como Margot e João de Magalhães; homens de labuta, moídos de saudade, como o pobre António Vítor; onde os Heitores e Aquiles se chamam sinhó Badaró, coronel Horácio, onde a parabellum dita a lei e a coragem é a estrela mais brilhante dos "A B C". Com essa gente e esse cenário desmedido, morno e envolvente, com os miseráveis, os vagabundos, os desesperados, os cobiçosos e os amantes, fez JA uma obra-prima para todos os públicos, obra de imaginação e de poesia, de realidade e de amor, que é bem uma "história de espantar" dessa terra do cacau adubada com sangue".

Comentário:
O primeiro livro que lemos no
Clube do Livro para o mês de Abril. Requisitei na biblioteca aqui da zona, após ter consultado via internet a sua existência e disponibilidade para empréstimo.
Lê-se bem. Escrito em "brasileiro", com glossário a final para auxiliar nalgumas palavras mais difíceis, como cabra, caxixe ou repetição. Quando comecei a inteirar-me do enredo, veio-me à memória as cenas das telenovelas inspiradas em livros de Jorge Amado. Voei até à Baía e aos personagens tipo que povoam as suas histórias.
A luta sangrenta pelo cacau, a ausência de importância da vida humana, a primazia do valor coragem, a lei aplicada a gosto e por quem der mais, duas facções a degladiarem-se constantemente, absorvendo terras e gente, os migrantes que chegam e se perdem de amores pela região, a visão de uma mata repleta de perigos e doenças, o medo muito presente em todos os capítulos, resume uma obra repleta de violência, paixões eternas e muita, muita dinâmica e acção.
O livro faz-se de momentos, em que algumas personagens ganham protagonismo por breves instantes e depois nunca mais ou pouco aparecem. É o caso do debate intenso na consciência do negro Damião quando decidiu falhar o tiro, o que desencadeou toda a guerra pela mata do Sequeiro Grande entre as duas famílias. É o caso da história de Raimunda, a irmã de leite da dona da fazenda. É o caso das três irmãs que acabaram na prostituição e o seu percurso diverso com o mesmo desfecho.
O livro faz-se de mini-histórias de amor, como a de Ester e Virgílio, a de D'Anna e João Magalhães, a de Raimunda e António Pedro com finais comuns, mesmo com a morte no intermédio.
Uma escrita crua, dura e sincera. Gostei.